Termos da machosfera estão sendo incorporados ao vocabulário de crianças e adolescentes – e combater isso exige mais do que corrigir palavras
Uma reportagem da Folha de S.Paulo nesta semana relatou como os termos de comunidades misóginas têm sido popularizados na cultura a ponto de serem incorporados por crianças e adolescentes.
O principal perigo é que algumas dessas expressões, que têm se disseminado por meio de memes e piadas, são usadas por quem ainda não compreende seu verdadeiro significado a ponto de virarem tema de atenção em escolas
Mas além de preocupar pais e educadores, essa linguagem já chegou até a comunicação oficial de governo, em uma campanha de vacinação pelo governo do Rio Grande do Sul, como denunciou a ex-deputada federal Manuela d’Ávila.
Do que estamos falando?
Reproduzimos aqui o glossário da reportagem da Folha, que engloba as principais expressões que estão sendo popularizadas
O que há de obviamente nocivo é que todas essas gírias defendem papéis de gênero tradicionais com submissão feminina e hierarquização entre os próprios homens. Dividem todas as pessoas em categorias essencialistas vistas como “naturais” e reforçam papéis de gênero rigidamente definidos e pautados na desigualdade e na submissão.
Usar o vocabulário do inimigo, o fortalece
Na disputa política, muitas vezes (se não sempre) a batalha se dá pela linguagem. Portanto, ao repetir e incorporar termos como “sobrou nada para o betinha”, na prática estamos validando que existe um “alfa” e um “beta”, e que devemos tratar cada um de acordo com sua posição.
Em pesquisas sobre espaços mais radicalizados na misoginia, sempre é apontado que “as palavras usadas pelos usuários servem como marcadores identitários e criam um senso de pertencimento à comunidade”, como demonstrou Guilherme Caetano, repórter do Estado de S. Paulo. E mesmo em ambientes mais saudáveis, é através da justificativa de que determinada fala “é só uma brincadeira” que frequentemente mascaram-se discursos perversos.
Na nossa editoria Persuasão, temos um episódio inteiro para tratar disso: o poder do enquadramento e como somos facilmente influenciados pela linguagem.
O resumo, muito baseado no linguista cognitivo George Lakoff, é que repetir os termos e metáforas do seu adversário — mesmo que seja para negá-los ou criticá-los — é uma armadilha: você acaba fortalecendo a moldura mental dele na cabeça das pessoas.
O “dicionário do debate público” importa porque quem controla as palavras, controla o limite do que é aceitável na sociedade. Precisamos ter a coragem e a inteligência de pautar o debate a partir das nossas próprias molduras, nomeando o mundo com os valores que queremos ver florescer: a igualdade, o respeito e a dignidade.
Mudar o enquadramento não é ser policial
Outra cilada possível nessa discussão é tornar-se fiscal de como os outros falam.
É importante evitar reproduzir qualquer tipo de expressão de origem de comunidades misóginas e, ao dialogar, usar outras palavras. Mas apitar toda vez que alguém usa determinada palavra problemática pode ser contraproducente.
O crítico cultural Mark Fisher argumenta num famoso texto que uma parte da esquerda, ao focar em policiar a linguagem alheia, essencializar identidades e culpar indivíduos, não muda o sistema; apenas alimenta o ego de quem critica.
O moralista afasta quem quer convencer. Ou como escreveu Mário Quintana, “não há nada que empeste mais do que um desinfetante”.
E como falar com homens?
Quando o assunto é combate à misoginia (mesmo que só na linguagem), é mais simples incluir as mulheres do que os homens nessa conversa.
As mulheres devem ser o foco de políticas que as protejam, mas não podemos deixar de conversar e persuadir homens, especialmente os mais jovens; afinal, é uma das formas mais eficazes de prevenção da violência de gênero.
A youtuber Natalie Wynn, conhecida como ContraPoints, é uma mulher trans, abertamente de esquerda, cujos videoensaios desmistificam discursos machistas ou homofóbicos. Utilizando uma abordagem que não desmerece o ceticismo masculino, o canal dela ficou famoso por “desradicalizar” garotos e é um exemplo para todo mundo que procura referências nesse campo.
E a própria Natalie tem um vídeo argumentando por que é importante falar com homens, mesmo os já radicalizados e não tão jovens. Em suma, ela argumenta que especialmente os que estão sem perspectiva financeira estão sofrendo com os próprios papéis de gênero, que parte dos progressistas só oferece “homens são um lixo” como resposta a eles.
Mostrar que as próprias hierarquias intragênero masculinas criadas pela misoginia da extrema direita só rebaixam os homens (além de recompensar simbolicamente os que têm comportamentos violentos) é uma forma de recuperar esses mesmos homens para a conversa.
Autoajuda VS Autoajuda
Além do recurso da piada que é supostamente inofensiva, a normalização da misoginia também se usa muito da autoajuda para entrar nos feeds e nas mentes masculinas.
Muitas vezes, os conteúdos misóginos começam com dicas sobre rotinas de produtividade, sucesso financeiro, melhoras de aparência e, em poucas rolagens no feed, começam a falar sobre liderança biológica, dominância, alto status, controle sobre os outros e conteúdos de aversão a mulheres. Esta reportagem do Núcleo Jornalismo detalha bem o mecanismo.
Mas a boa notícia é que a mesma arma funciona para combater. Talvez o maior exemplo global dessa abordagem seja o psiquiatra Alok Kanojia, que já foi professor de Harvard e é conhecido como Dr. K.
Dr. K fala diretamente sobre solidão masculina, falta de propósito, vício em pornografia e a dificuldade de conseguir encontros. Em vez de culpar as mulheres ou o feminismo, ele aborda esses temas sob a ótica da neurobiologia, da psicologia clínica e da meditação oriental. O portal Manual do Homem Moderno, em português, também faz um bom trabalho de debater saúde mental masculina e desconstruir mitos da masculinidade tóxica usando uma linguagem de “brother”.
E uma das melhores referências em ciência sobre comportamento de homens é o pesquisador Richard Reeves, que analisa como os homens estão enfrentando crises profundas no nível de educação e qualificação no mercado de trabalho.
O que todos esses pesquisadores e ativistas têm dito é que não importa a idade, a ressocialização não pode deixar de ser uma esperança.
Dicas finais sobre o assunto:
- 🎥 Documentário O silêncio dos homens, produzido pelo portal PapodeHomem, um dos estudos audiovisuais mais profundos do Brasil sobre masculinidades, saúde mental e as pressões sociais que cercam o homem contemporâneo.
- 📚Livro Não pense num elefante, de George Lakoff, que foi traduzido este ano para o português. Lições valiosas de comunicação política, guia clássico de como expor ideias políticas com eficácia sob a discussão dos diferentes enquadramentos.



